amar, amor...




ah esta saudade! esta palavra que tanto significa e nada diz. eu não me entendo muito bem com a palavra dita, vociferada... é verdade. (eu não sei o que dizer às vezes, por possuir esta mania de poeta que tantas possibilidades me oferece)
penso no significado das palavras, eles me prendem a atenção penso nos significados das coisas, de modo geral.
hoje eu penso em saudade e 'peso entre meus sentimentos se há algo sensato neste tipo de emoção.

durante nossa vidas passamos por variadas situações; momentos ruins, bons. buscamos a felicidade todos os dias e só buscamos aquilo que não possuímos. podemos ser feliz todos os dias de nossas vidas, mas passamos por situações marcantes, tanto de alegria como de tristeza. minhas maiores alegrias foram os nascimentos de meus filhos, portanto o dia mais triste da minha vida foi o dia em que peguei em minhas mãos a certidão de óbito de meu filho mais velho. superação? não existe. a dor é latente mesmo após cinco anos de ausência. porém me considero uma pessoa feliz. "ser feliz com nossas dores" não é tão complicado como parece... houve uma vez em que com câncer tive que banhar minha mãe, ela já estava com o corpo débil, foi um momento marcante porque ao mesmo tempo que sabia que estava chegando o momento de me despedir dela, eu me sentia orgulhosa de poder cumprir tal tarefa. mas temos a tendencia de dar mais importância aos momentos de dor e tristeza, pois esses momentos é que forjam nosso caráter, esses momentos é que nos preparam para a vida. 

hoje eu compreendo quão necessário são esses momentos e que todos eles tem um significado valoroso em sua forma, seja de dor ou alegria. 

quando meu filho era vivo, não havia um dia em que estivéssemos juntos em que eu não o dissesse que o amava, e assim ele aprendeu a me dizer o mesmo, e a inda hoje não há um dia em que vá me deitar sem dizer ao meu filho mais novo que o amo. no final das contas é isso que fica. o amor! as coisas ruins podem nos abalar, as boas também, mas elas passam. mas o que plantamos ao longo do caminho permanece. se você tem um filho, sobrinho, irmã, netos... não importa o laço, mas se você tem alguém a quem passar amor... dê, dê hoje já que o amanhã nós não temos. ouvi dizer que a única coisa que temos de verdade é o hoje. o amanhã nunca chega, o ontem já passou, o momento é hoje. eu não aceito ter perdido meu filho, mas sei que ele compreendia meu amor e que o levou com ele. sinta esse orgulho, quebre as barreiras de suas emoções, desfaça suas mágoas, esqueça os princípios que você criou e abrace, verbalize seu amor, sua felicidade de ter por perto as pessoas que se importam com você e com as quais você se importa. mesmo as pessoas mais resistentes... não se envergonhe de amar. pegue na mão de sua filha, neto, mãe, pai, seja quem for... olhe nos olhos e diga "eu amo você" porque na correria do dia à dia não nos importamos em dizer embora muitas vezes demonstremos na prática, provendo o sustento, dedicando nossos tempo as pessoas (porque a gente faz isso) a gente se doa diariamente as pessoas que nos cercam, mas esquecemos de dizer a elas "eu te amo"

eu amo algumas pessoas que me cercam, meu filho, meu marido, minhas irmãs, sobrinhas e sobrinhos, meu pai, amigos. amo até aqueles que por alguma encrenca de família não falam comigo. eu daria parte do meu fígado, doaria um de meus rins a elas casos necessário fosse. isso é amor incondicional, isso é verdadeiro.

e digo isso a vocês para que se entenda que a vida passa muito rápido e vale a pena ser vivida e que viver a vida é seguir o caminho que trassamos e nada melhor que trassar amor em nossas vidas já que levamos aquilo que cultivamos.

eu amo vocês

para Breno (por seus 5 anos de ausência física), Bruno,
Isabela, Nayara, Jasmim, Yasmim, Elly,
Halan, Harlan,
Andréia, Flávia, Flávio,
Flavio Junior, Júlia,
Jillines e Tamires
Ermoges, Alexandre Luz,
minha saudosa mãe,
minha prima Ana Paula
meus tios e amigos mais próximos
e para você meu leitor.
abraço a todos!

rosangela ataíde


artilharia



se acaso
a palavra me bastasse

não miraria teu peito
alvo

minha mira é um fracasso
mas enxergo bem, obrigada

minha artilharia é pesada

...a respiração é que me trai
a cada sílaba disparada

e você, perverso
não pára quieto
em minha reta abordagem

rosangela ataíde

Alentejo

Loble

sei da noite o blue
sei do dia, vertigens 

e não me abalo por nenhum conto
canto ou choro

sei do seio o aperto no peito
e da minha cinta a liga que se soltou

sei de você saudade...

e não quero saber do mar que te leva para o Sul
enquanto parto para o Norte

minha sorte segue pelo ar e tem asas, a guiar
para um rio de águas doces - turvas e potáveis

do rio que me aguarda nada sei 
além das margens 

...mas na vida, dei um basta às vaidades

rosangela ataíde


so cruel



temo em mim
esta verdade
mais crua do que nua
nunca dita, é verdade
mas explicita, posta a mesa do jantar

ela, tão crua
vandaliza minha razão

não se desvenda nua
não se despe ou fica a mostra
como realmente é, ou significa

uma verdade meio dita
escondida muito além dos dentes
misturada a saliva

ah esta verdade
tão maculada
quase mordo a língua
só de pensar






tarde efêmera



no vazio
a tarde silencia o 
absurdo
e minha surdez
agoniza
murmurinhos insanos

mais vazios 
que a tarde
no oco da caixa LED
é domingo

o meu pensar desertor
vaga perdido
parte sem deixar vestígios

rosangela ataíde








bla bla bla




cortar laços
romper os liames
para não adulterar a alma
nem abater a carne
não destroçar os músculos
nos ósculos das tardes

se esvaziar
daquilo que não se crê
resíduos fragmentos de mentiras
no ranger dos dentes salivares
que nos contém

seja aos berros!
ou na morte em vida
de quem te corrompe a lida
cortar laços

todo ele que nos destrói
cada dia um pouquinho
cada dia mais.

rosangela ataíde

Deus vai na frente, pedalando



Deus chegou em sua bicicleta, cheio de forma não me parecia cansado. Eu que me sentia solitária com todo aquele papo de fim do mundo, estava deprimida, triste, mas fula com Deus! Ele tinha que aniquilar o mundo exatamente durante minha existência, encarnação, geração... sei lá! Eu tinha que participar disto! Eu não podia passar sem mais essa!

Todos haviam ido para algum lugar, os celulares não funcionavam e os terremotos eram cada dia mais frequentes... Eu temia morrer sozinha, mas Deus não vacilou nem mesmo na minha partida. Enquanto ficava desviando meu pensamento de imaginar como seria morrer entre os escombros de minha casa, agonizando até o fim, reclamando à Deus por sua falta, cheia de auto piedade, Ele apareceu! 
Cheio de graça, apressado e me apressando. 
Eu falei; 
— Espera Deus! Esqueceu que tenho filhos, marido e cachorros? Ele me garantiu que os levaria, um por um e que logo estaríamos juntos, mas que não caberíamos todos na bicicleta e que aquele era o momento reservado para mim.

Não vacilei, montei na garupa da bicicleta e segui em frente com Deus. Fomos conversando e nem sequer notei, em que ponto a paisagem havia mudado, quando dei por conta estávamos  no céu. Mas o céu não era um céu sobre nuvens, cheio de jardins, lagos e pessoas vestidas de branco. Era sim, como se fosse uma outra Terra, dentro desta Terra, e o sol não era tão impactante, nem sequer dava para vê-lo embora fosse tardinha, algo perto de 15:00 h.  

Seguíamos por uma estradinha de chão batido, eu olhava ao horizonte enquanto Deus falava de fé, arrependimento e perdão... notei ao fundo,  a direita, uma metrópole e ao meu lado esquerdo, uma comunidade carente e ainda adiante, para onde seguíamos uma zona litorânea. Deus pedalava com força estávamos a cerca de 60 km por hora quando indaguei a Deus...

— Pensei que você estivesse me levando para o céu.
— Mas estamos no céu.
— Tem favela no céu, você teve a coragem de criar favelas até no céu? Quando você vai dar uma chance ao pobre, injustiçado?
— Cada um tem direito ao céu que imagina e que gosta! O homem se fez escravo de suas vontades desde a criação do livre arbítrio. Não tem cabimento, levar um ser que ama a cidade grande para o sertão, ou ainda um que ama a comunidade para um palacete de vidros transparentes e talheres de prata. Isso seria o inferno e não o céu!

Confesso fiquei impactada! Deus mais uma vez me surpreendia. 

E Deus continuou com sua conversa sobre fé, arrependimento e perdão por cerca de mais um quilometro, quando chegamos em uma ruazinha, como a de uma vila e eu avistava num portão um alvoroço. Quanto mais Deus se aproximava, mais aquelas pessoas se agitavam e eu pude ver que aqueles semblantes, não me eram estranhos e logo notei que se travavam de meus familiares, quase todos eles, ou ao menos os que haviam morrido. Pulei da bicicleta e corri em direção a eles, deixando para trás, Deus que logo deu meia volta e pedalando voltava na direção da qual tínhamos vindo.

Pulei nos braços de minha tia, e logo vi minha mãe e ao ver minha mãe, sabia... ele estaria ali, então entrei pela casa a sua procura, casa essa que notava era a da minha infância. E sim ele estava lá, junto a minha parentela com o mesmo sorriso, menino, meu filho! Nos abraçamos e chorei de alegria não consegui expressar com palavras o que sentia, então nos alongamos no abraço. Como era boa sua presença, como era bom estar ali com todos aqueles que eu amava. Eu daria minha vida por um momento como aquele. Ah daria!

Por um momento fiquei preocupada com meu outro filho e nesse momento fui arremessada para a casa onde Deus havia ido me buscar e ouvi Deus falando ao meu ouvido...

— Arrependam-se de seus pecados, pois...
— Como assim Deus? Como criar um mundo de pecados e pedir fé, arrependimento e perdão? O que você quer dizer com isto? Se a humanidade é essencialmente pecadora, como aniquilar o pecado de seus corações?

Deus apareceu nesse momento e ele era de uns 40 anos, não era belo, não era feio, não era magro, mas não era gordo. Era Deus apenas. E me parecia estranhamente humano. 

— Criei o universo para nele habitar a compaixão. Sou tão louco pela compaixão que inventei um espaço apenas para poder apreciá-la, mas ao criar este espaço tive que inserir nele o ego. Num mundo onde habitam compaixão e o ego, surge a servidão e assim sendo, o escravo. E o homem ficou escravo do ego, digno de pena. Digo digno de pena, pois, a compaixão sendo livre não perdoa o ego e se ausenta. Quando clamo por fé, arrependimento e perdão é para que o homem se dispa do ego, voltando a ser essencialmente Adão. Sem máscaras, sem personagens. Apenas homem, pois o pior da humanidade é o homem que tenta deixar de ser o que é para ser o que não é, e que para se firmar como o que não é, torna-se vil. Um julgador, incapaz de se colocar no lugar do outro, um preconceituoso. E ainda um causador de sofrimento que atribui sua maldade ao outro, geralmente a mim. Não há pecado maior que o de não poder acreditar em si mesmo e se fazer escravo, escravo de si. Pobre do homem que tenta deixar de ser humano.

Eu respirava, meu cachorro lambia minha face e minha gata dormia ocupando a maior parte de minha cama.

E mais uma vez Deus me surpreendeu!

E tudo isso, não passou de um sonho.

rosangela ataíde

dialetica


desligue o player acima para assistir a performance

o corpo do poema é a palavra
curta, pouca, torta
erguida ou deitada
o poema é o corpo dado a palavra

o corpo da sombra é a luz
esta que torna visível,
num flash, num golpe de lucidez
esta que delimita as nuances
e seus tabus
a luz é o corpo da sombra

o corpo do vulto é o volume
seja vivo ou morto
seja o seio devasso
delírio, 
o vulto que te assombra
é volume

o corpo da água é o espaço
seja pequeno ou vasto
contida num copo
seja qual for a forma
ela se assume
ela é água

o corpo do corpo é a alma
sendo ela essencial
necessária ao movimento
o vendaval interno que nos rege
mesmo quando contida
a alma é o corpo do corpo


rosangela ataíde




painted






fazer ressoar as tardes
frias entre a pele

trazer a lembrança
de uma guerra 
anêmica 
branca cicatriz

fazer ressoar o voo
o alto crocitar 
/pássaro aniquilador 

fazer ressoar o branco
de uma guerra branca
numa tarde branca

o ressoar do pássaro negro
necrófago pouso
no corpo débil

que deita no branco dia
da tarde mais fria
numa hora rota
o fim




rosangela ataíde















m_ld_d_



penso esta palavra oculta
a palavra inculta
que se diz 
substantiva

surrada 
tão gasta esta vândala
que me cala
...indizível!

penso na palavra 
nua
tão crua carne

desvendada
entre dentes
salivares
que me rasga a pele
e me morde
de inveja

rosangela ataíde